MAIS COM MENOS: O NOVO GRANDE DESAFIO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

Por Anaías José Hafemann*

Aumento da população, consumo e renda intensificam a necessidade de mais alimentos. E o Brasil, dia após dia, se consolida como grande celeiro do mundo.

Este é um ano atípico para nós brasileiros. Estamos vivendo novamente com aumentos oriundos de inflação e aumento desordenado do dólar, algo que não ocorria em nosso país há muito tempo. Fatores como o ajuste fiscal não aprovado no Congresso Nacional, problemas de diálogos entre a Câmara de deputados e o Planalto, ameaças de impeachment e notícias de corrupção só aumentam o problema que se iniciou com a crise internacional há alguns anos.

A boa notícia é o agronegócio – responsável por 27% dos empregos formais e 44% do total de exportações do país –, que mais uma vez dribla essa crise com aumento de produção e controle de custos. No ano de 2014 tivemos uma safra recorde com 206 milhões de toneladas e, para esse ano, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a perspectiva é o aumento de mais 3,7% de produção, o que fará que tenhamos novo recorde . Esse aumento, com destaque mais uma vez para a Soja, impede um descontrole inflacionário ainda maior, pois o aumento da demanda faz com que os custos dos alimentos para os consumidores fiquem menores.

Quando falamos de agronegócio, estamos falando de todo segmento correspondente, como:

  • Agricultura: corresponde a todas as atividades que têm por objetivo a cultura do solo para produzir vegetais úteis ao homem e/ou para a criação de animais.
  • Pecuária: todo ramo cuja atividade trata da criação de animais.
  • Equipamentos: máquinas e implementos agrícolas necessários para a agricultura e/ou para a pecuária.
  • Serviços: destinados ao segmento, do plantio à colheita, do nascimento ao abate de animais, entre outros.
  • Indústrias: agroindústrias e cooperativas que atendem aos produtores rurais, seja para fornecimento de crédito para o plantio, seja para comercialização da safra.
  • Comércio: mercado de compra e venda focado em produtos do setor.

O PIB (produtor interno bruto), que é a soma das riquezas produzidas pelo país, é positivo para o agronegócio, com expectativa de aumento de 2% em relação a 2014. Já fechamos o primeiro semestre com aumento de 3% em relação ao mesmo período do ano passado e hoje, o PIB do agronegócio corresponde à 23% do total. Que boas notícias para comemorarmos! Grandes setores, como a indústria, tem uma expectativa de queda de mais de 6% e serviços, que só teve crescimento nos últimos 25 anos, também tem previsão de queda de mais de 2%.

A preocupação da agropecuária moderna não se restringe a produzir mais aumentando a área das fazendas. Hoje a necessidade sustentável do negócio vem ganhando força ano a ano. A integração da lavoura, pecuária e floresta (ILPF) ganha força e os produtores muitas vezes produzem até três cultivares diferentes no mesmo ano. O ciclo é menor e a preocupação do solo também, pois o mesmo não poderá ficar degradado para conseguir essa rotação de culturas.

O governo é um agente primordial na necessidade de aumento de produção, seja fornecendo condições de Crédito Rural, seja melhorando o transporte das produções agrícolas. Falando um pouco de transporte, hoje nossos portos do Sul e do Sudeste estão em constante ampliação, muito alavancado pela nova concorrência dos portos do Arco Norte, muito pela cobrança externa de agilidade nos carregamentos. Porém, os caminhos até os portos são muito precários: as rodovias têm muitos buracos, são perigosas e malconservadas, entre outros graves problemas que possuímos na nossa malha rodoviária e ferroviária.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) espera que, até 2050, o Brasil seja responsável por 40% do mercado mundial de alimentos. Mas como isso será possível, diante da escassez de recursos citados acima e com tantos desafios? Citarei algumas alternativas de como o segmento se prepara e como a tecnologia pode contribuir com o alcance desses objetivos:

  • Vamos começar pelo campo, ou seja, solução “Porteira para Dentro”. Hoje, mais do que nunca, os produtores necessitam de informações, como o custo da produção por safra, até em nível de talhão: custos de mão de obra, da manutenção das máquinas, dos serviços, insumos e defensivos. Com esses dadps em mãos, é possível formar um preço de venda da sua produção e compará-lo com o preço ofertado nos mercados interno e externo – além de projetar a próxima safra, visto que em época de colheita já se faz o planejamento da próxima safra. A tecnologia, em situações como essa, já dispõe de softwares mobiles que atuam no gerenciamento operacional com apontamento de campo. Na Senior, por exemplo, a M²Agro, uma das startups finalistas do programa Inove – nosso programa de aceleração corporativa que oferece aporte, know-how e acesso ao mercado para até 10 startups que demonstrem potencial econômico – trabalha no aperfeiçoamento de uma solução justamente dentro dessa linha.
  • Outro grande desafio é a falta de água. A crise hídrica há anos assola centenas de cidades brasileiras e a falta de água no campo prejudica muito a produção. Grandes produtores possuem tecnologia para mapeamento das condições climáticas, com estação meteorológica, controle de irrigação e controle de estufas e ambientes. Hoje esse controle é individual e a coleta de informações é morosa, dependente de um responsável no campo. Para facilitar estes controles, a Embrapa Instrumentação e o Laboratório de Robótica Móvel da USP de São Carlos (SP) desenvolveram o Robô Mirã, um drone de análise de solos (estima a quantidade de matéria orgânica no solo, fertilidade e pH) e plantas (analisa a nutrição e detecta doenças). O robô permite um mapeamento preciso da lavoura, considerando que a aplicação de insumos é determinada pela média de amostras, com análise de solo espaçada. Por falar em drones (que são veículos aéreos não tripulados) para agricultura, hoje já é possível comprar equipamentos de excelente qualidade a partir de R$ 5.000 o que projeta a agricultura de precisão em evidência nas fazendas.

Esse aparato tecnológico que iniciou com o uso de celulares, chegando a veículos autoguiados e colheita robótica, faz com que os funcionários do campo, produtores e pecuaristas necessitem de qualificação para essa virada tecnológica. Essas alternativas só não são maiores porque no campo apenas 15% possuem acesso à internet – muitas vezes com custo alto –, já que apenas são possíveis via rádio ou satélites. Porém, já vimos movimentos de testes e alternativas para aumentar esse acesso, sem contar as novas gerações de produtores que já saem das faculdades totalmente conectados.

Após a colheita ou em época de venda, a produção é enviada para as Cooperativas ou Agroindústrias, que a comercializarão. Neste momento, um ERP tem condições de oferecer controle, segurança e automação da produção. É essencial que o sistema conte com back officecompleto e seja aderente à complexa legislação brasileira, já adequado às recentes exigências legais, como o Sped aderente ao Bloco K e ao e-Social no RH. Empresas que contem com soluções específicas para o setor do agronegócio conseguem contribuir com ainda mais precisão, já que seus especialistas pensam sempre no produtor rural, que é o maior interessado nas soluções.

Para fazer mais com menos, é preciso usar a inteligência para escolher onde e como investir. Mais com menos não quer dizer cortar custos, mas organiza-los a ponto de otimizar os projetos e ganhar no custo-benefício. É um desafio, é verdade. Mas a tecnologia está aí para ajudar nessas escolhas.

*Anaías José Hafemann é analista de negócios com foco no segmento de Agronegócio na Senior, empresa referência no desenvolvimento de sistemas para gestão empresarial.

 

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